No meio do rio

21/06/2009

Vejo-me

Eu

Dentro d’água

No meio do rio

Corre a corrente

Correnteza de frio

Bate  no peito

Espirra na cara

Sou eu

No meio do rio

Em uma margem, partir

Jazer é ir

É deixar de escrever

Na outra,  voltar

é seguir

Neste pobre rimar

Sou eu

No meio do rio

Não sei se ando

Para o lado da chama

Ou deito

No leito do rio

Escolho, me entrego

Ao meu próprio naufrágio

Sem precisar de navio

Ora

21/06/2009

Viver o aqui

E o agora

Como?

Se até isso

A hora, ora

Também

E o tempo todo

Está sempre indo

Embora

Nuvens redondas

Grandes, graúdas

Crespas ondas

Teus cabelos de algodão

Cúmulus  de  cachos

Caem em cântaros

Esferas desfeitas

Em espirais

Longos finos fios

Loiros anéis de sisais

Descem pelo pescoço

Véu ondulado

Que o vento empurra

E afasta para  longe de mim

E de outros mortais

Chifres de cabrito

Em profusão

Ou ainda, imagino,

Penso : ” são carneirinhos”

Um rebanho inteiro em desalinho

Sem ordem, nem formação

Partem  do alto da cabeça

Se enrodilham em pontas

Fazendo voltas

Que  vão descendo

E que teimosamente

Tornam a voltar para o céu

Nuvens redondas

Crespas, grandes

Graúdas ondas

Teus cabelos de algodão

Um sonho, um desejo antigo

De poder um dia

Alcançar com a mão

Descansa

30/04/2009

Descansa a língua por alguns instantes

Que ela se acomode

Na cama redonda dos dentes

E fique ali imóvel

Banhada na saliva morna

Que a boca fechada produz.

Deixa-a quieta

Como é a lesma dentro da concha,

Escondendo-se úmida e resignada

Em toda a sua clausura.

Te mantém assim

No receio desse silêncio

Na prudência das coisas não ditas

Já não nos maldizemos o suficiente?

Falamos tanto um ao outro.

E falamos tão duro e tão pesadamente

E foi tão triste

Agora chega

Se não pode a alma,

Se não pode o coração,

Que pelo menos a língua,

Coitada, descanse.

Nem que seja por essa breve trégua

leite puro a cor da pele

verdes veias do pescoço

pulsam novas,

correm quentes,

assustadas

do perigo

da minha boca

que se abre

soltando a  fome

besta desenjaulada

 

lá de dentro da garganta

vem minha língua

sibilante,

flamejante

lambe a pele

molha o poro

escorre a baba

serpenteia

cata os cantos

busca entrada

 

ele, imóvel

eu, vampiro

busco intrépido

o que já fui

corpo jovem

vasos fortes

sangue fresco

… mas que bobagem …

ninguém é

o que possui.

A escrita só é escrita quando sai

Quando parte do porto

E atraca no outro,

Deixando seus laços, seus nós,

Seus dramas, suas lágrimas,

Seus mares, seus sais

 

A escrita só é escrita quando sai.

Antes disso não é nada

  ardor,

Um pavor ,

Um receio,

Um mudo “ai”

 

A escrita só é escrita quando sai

Como urina que arde

Como porra que jorra

Como fluído

Que só é exibido

Na dança comum da cama

Depois de excitar alma

E de esgotar o corpo

No calor aflito

Do vai, não vai

 

A escrita só é escrita quando sai

Como prêmio

Como gozo

Como fruto pós-escondido

Que antes de surgir, hesita

Que ameaça que vem,

Que some

Que vai

Mas eis que chega a hora

E então vomita

Bem na ponta da caneta

A palavra,

A confissão, 

O grito,

Ou é o meu pau que esquenta a tinta

Do destino que aqui vai?

 

Pois digo que como homem 

já cravei na carne de outro homem

um poema 

que não soube ter fim

tão ralo e difícil

como os erros sem fala

a escritura sem texto

a herança vazia

do meu falecido pai

Medo e memória

30/04/2009

Na prateleira,

o avião

a bola

o lobo marinho

os soldados de chumbo

e outra pálida recordação

a  foto dele

de menino

pousando de juiz

na tardes feitas

de futebol

 

Mas avista agora

um tormento

de repente

um medo

 sem cor

ele pensa

que tudo isso

está deixando

de ser lembrança

para virar

esquecimento 

Olhos de Patrícia

30/04/2009

Seus olhos de piscina verde

Não tem o perigos das marés

Mas há um quê de solidão

 

São duas gotas claras,

Par borrado de  aquarela

Dois pingos caídos 

No meio da escuridão

 

Você tem no rosto, minha  cara

Duas pequenas cavernas

 E lá dentro duas pequenas lanternas

Mini luzes, escondidas de tanta paixão 

Mora em mim

30/04/2009

As palavras

que aqui

se pode ler

são as primeiras

moradoras

de uma nova 

estrutura

que  começo por fazer

 

Umas

sobre

as outras

elas

se

empilham

se agrupam

afobadas!

Querem viver,

coitadas,

eternamente na poesia

recém-chegadas

assustadas…

de dentro

da confusão

do meu próprio ser

 

Famílias

inteiras

de vocábulos

fugidas

de mim,

saídas

de mim

nestes versos,

orgulho e vergonha 

minha criação, meu rebento

frutos ingratos, sim

de meu infinito tormento

Saiam, saiam todas

covardes vãs

viciadas em ungüento

Se não sabem habitar

a alma de um poeta

serão só nestes pobres blocos,

neste modesto querer

nesta rima fácil e vulgar

que estarão vocês, 

condenadas a aparecer.

 

 

Saiam, palavras, já disse,

saiam de mim.

É meu alívio, minha via

e minha sina

saber  que a vida vai acabar,

mas que a poesia,

a poesia nunca termina

E que mesmo depois da minha morte

terá sempre o talento de outro alguém

que saberá zombar  do passado

e  escrever  tudo por cima.

 

 

Vamos, se unam,

             se juntem,

             se formem

Desçam lindas, de alto a baixo

O corrimão do condomímio

“Alvorecer”

E cheguem agora por fim aqui no térreo

Fazendo deste poema

uma edificante

construção

da inútil paixão

que reside em compor,

em amar, em  viver.

Sem fim

30/04/2009

Dos amores desfeitos,

dos corpos enterrados,

dos amigos esquecidos,

do passado ressentido,

dos futuros roubados,

 

O algodão absorve o sangue,

o lenço enxuga a lágrima,

a chama afugenta o frio,

o chá acalma os nervos

Mas só a morte, só essa

é sem remédio

Pois eis que não há vela

quando já se foi o pavio

 

Quando dizes que acabou tudo,

sinto, mas não creio

Posto que o fim

- o desterro carnal da morte –

esse ainda não veio

Depois disso, aí sim,

Não se tem, nem se terá outra sorte.

 

Até lá receio

que o nosso fim

dor longa e persistente

será sempre

ai de mim

como essa estrofe

de idas e voltas

iguais e repetidas assim

Poema da Desunião

30/04/2009

 

 Estes versos

que não rimam

tão difíceis de fazer

são como o esforço

- em vão -

de juntar

você e eu

em um mesmo acontecer

 

Ingratas vogais

que não se encontram…

malditos fonemas

que não se casam…

É o capricho das palavras

teimando

que, unidas,

não irão aparecer

 

É  a frase

que não foi dita

O gozo

que não vai soltar

 É eu e você

E  aquela verdade

               infinita

que tem pavor

de se mostrar

 

Ninguém se entrega

De corpo e alma

Medo e asco

É  o que há

E assim, entre nós dois, my dear

A poesia

Ah, a poesia

não se dá

Nada feito

30/04/2009

Meu peito

deitado em dor

 

No leito

da humilhação

 

Dói feito

faca enfiada ao fundo

 

Pois não aceito

essa mágoa tanta

 

De que entre nós

não tem mais jeito

 

E à tua solidão agora

Seu ingrato

Só desejo

“Bom proveito”